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Músicos no céu

Luis Fernando Verissimo

Todos os músicos, quando morrem, vão para o céu. Muitos se surpreendem com isso. Não imaginavam que sua vida na Terra os levaria a qualquer outro lugar que não fosse o inferno – ou pelo menos um inferninho, onde seu castigo seria passar a eternidade num ambiente enfumaçado ouvindo bêbados pedir “Toca Feelings”, e sem poder beber. Mas outros não demonstram nenhuma estranheza ao se verem no céu. Sabiam que o mesmo Deus que lhes dera o dom da música lhes daria a recompensa pelos sons que produziam em vida, apesar dos seus pecados. Pois não é a música a linguagem das esferas celestiais, o som humano que mais agrada aos ouvidos do Senhor, incluindo as duplas sertanejas? Chegam no céu sem surpresa e vão logo procurar sua turma, certos de que todos estarão lá. E estão todos lá. Desde o primeiro pastor que fez buracos num talo e soprou na ponta até o inventor do sintetizador eletrônico. De Palestrina a Pixinguinha, de Salomão a Sinatra, passando por Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartok e Bororó. Até Nero está no céu, na sua condição de lirista amador.

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Aliás, o músico recém-chegado ao céu se surpreende ao ver Nero tocando numa orquestra de liras e harpas, regida por um Stokovski obviamente enfarado. Toda a categoria está em volta da enorme orquestra de liras e harpas – músicos, cantores e compositores, entre mortos recentes e antigos – e todos demonstram o mesmo tédio do maestro. É evidente que ninguém aguenta mais ouvir liras e harpas. O recém-chegado senta-se numa nuvem ao lado do Perez Prado e pergunta se o concerto começou há muito tempo.

- Si – responde Perez Prado, com um bocejo.

- Ainda bem que já está acabando... – diz alguém do outro lado do recém-chegado, também bocejando. É Tchaikovsky.

- E é sempre o mesmo programa... – diz Charles Trenet, sentado atrás.

- Depois melhora um pouco... – diz Franz Lizt, ao lado de Perez Prado.

- O repertório? – pergunta o novato.

- Não. O repertório e sempre o mesmo. Não existem muitas composições para orquestra de liras e harpas – diz Pablo Cassal.

- Mas aqui está cheio de compositores! Por que vocês não compõem música nova para orquestra de liras e harpas?

- Nos recusamos – diz Schubert.

- É a nossa maneira de protestar – diz Schumann.

- Protestar contra o quê? – quer saber o recém-chegado.

Mas a orquestra de liras e harpas parou de tocar. Ouvem-se aplausos esparsos e muitos suspiros de alivio.

- Agora vai melhorar um pouco – diz Liszt. – A outra orquestra, pelo menos é mais animada.

A orquestra só de liras e harpas é substituída por uma só de trombetas. Centenas de trombetas. O recém-chegado vê vários maestros num bolo fazendo um rápido torneio de par ou ímpar. O perdedor substituirá Stokovski e regerá as trombetas. O perdedor é Leonard Bernstein. Ele sobe ao pódio, desolado.

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A orquestra de trombetas é mesmo mais animada e toca mais alto do que a orquestra de liras e harpas, mas só toca fanfarras. Leonard Bernstein só precisa agitar as mãos no ar para reger fanfarras. Acaba cansando e é substituído pelo Von Karajam. E as fanfarras continuam. Fanfarra atrás de fanfarra. Nem o Beethoven aguenta. O recém-chegado avista o Tom Jobim no meio da multidão agoniado e vai lhe pedir explicações. Por que os compositores não compõem coisas novas para as orquestras? É um protesto contra o quê? Tom explica:

- Os únicos instrumentos permitidos no céu são lira, harpa e trombeta.

- O quê?

- Pois é. Os primeiros músicos que morreram trouxeram as liras e as harpas. Depois ninguém pôde trazer mais nada.

- E os tocadores de trombeta?

- Estes entraram porque tinham pistolão.

- O anjo Gabriel...

- É. E ele ainda toca. De vez em quando dá uma canja com a turma. Mas também só sabe fanfarra.

- Quer dizer que nem um violãozinho?

- Nem um violãozinho. Eu ainda pedi para experimentar fazer uma bossinha, eu na lira, o Chet na trombeta e o Ciro Monteiro na caixinha de fósforo. Mas não deixaram. Só eles podem tocar.

- Os que vieram depois não podem tocar nada?

- Nada. Sabe como é: sindicato forte...

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Mas pouco depois o recém-chegado cruzou com o Sibelius e o Carlos Gardel, que o convidaram para uma sessão clandestina. Numa boca do céu que nem Deus conhecia. O Charlie Parker ia tocar. Charlie Parker? Mas como...

- Ssshh. Ele conseguiu entrar com uma gaitinha de boca.


Domingo, 25 de julho de 2004.



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